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Este ensaio de Luiz Carlos F.Santos investiga como os vieses cognitivos, antigos mecanismos da mente humana, passaram a operar em um ambiente radicalmente transformado pelas redes sociais. Cultura, religião, experiências pessoais e algoritmos combinam-se na formação de universos informacionais cada vez mais particulares. O resultado é o avanço das bolhas, a fragmentação da atenção e o enfraquecimento das referências compartilhadas. Mais do que condenar a tecnologia, o texto propõe recuperar algo essencial à vida humana: a conversa, a escuta, a reflexão e a convivência. Afinal, sair de nossas próprias bolhas pode ser também uma maneira de reencontrar o outro.
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Vieses, Redes Sociais e a Perda da Conversa-um ensaio de Luiz Carlos F. Santos
Antes de tratar dos efeitos mais recentes da tecnologia sobre o comportamento humano, é importante compreender o papel dos chamados vieses cognitivos. De modo geral, vieses são inclinações automáticas do pensamento que influenciam a forma como percebemos a realidade, interpretamos informações, tomamos decisões e reagimos aos acontecimentos.
Esses mecanismos não são necessariamente defeitos da mente humana. Em muitos casos, funcionam como atalhos mentais que permitem decidir com rapidez diante de situações complexas, ambíguas ou ameaçadoras. O problema é que esses atalhos, embora úteis em determinadas circunstâncias, também podem distorcer nossa percepção, reforçar crenças prévias, aumentar medos, favorecer julgamentos precipitados e dificultar a escuta de pontos de vista diferentes.
Entre os vieses mais presentes no cotidiano estão a tendência de confirmar aquilo em que já acreditamos, a maior atenção dada a fatos recentes ou emocionalmente marcantes, a influência exagerada da primeira informação recebida, a resistência a mudanças, o medo de perdas, o excesso de confiança nas próprias avaliações e a inclinação a seguir o comportamento do grupo.
Esses vieses atuam silenciosamente em nossas escolhas pessoais, relações familiares, decisões profissionais, preferências políticas, hábitos de consumo e formas de convivência. Por isso, compreender sua existência é essencial para entender como cada pessoa constrói sua visão de mundo — e também por que indivíduos submetidos aos mesmos fatos podem chegar a interpretações tão diferentes.
Vieses antigos em um mundo novo
No processo de evolução humana, grande parte da nossa história ocorreu no período em que éramos caçadores-coletores. Nesse contexto, muitos dos vieses que ainda hoje influenciam nosso comportamento se consolidaram porque contribuíam para a sobrevivência da espécie. Reagir rapidamente ao perigo, desconfiar do desconhecido, seguir o grupo, valorizar sinais de ameaça e proteger recursos eram mecanismos úteis em ambientes incertos e hostis.
Hoje, porém, esses mesmos vieses atuam em um mundo profundamente diferente. As experiências particulares de vida, somadas às facilidades oferecidas pela tecnologia, fazem com que cada indivíduo lide com eles de maneira própria: em alguns casos, reforçando-os; em outros, conseguindo reconhecê-los e minimizá-los. Sob esse aspecto, cada pessoa torna-se singular na forma como percebe, interpreta e reage ao mundo.
Outro fator que contribui para essa diferenciação está relacionado à cultura de cada agrupamento humano. Entende-se aqui cultura em seu sentido mais amplo: o conjunto de valores, crenças, hábitos, práticas, formas de organização e modos de interpretar a realidade que caracterizam uma comunidade desde sua formação como grupo.
Para tornar a situação ainda mais complexa, as religiões também influenciam de forma significativa os modos pelos quais as pessoas observam, interpretam e atribuem valor ao mundo em que vivem. A elas somam-se outros fatores igualmente relevantes, como sexo, idade, classe social, nível de escolaridade, trajetória profissional, ambiente familiar, histórico afetivo, experiências traumáticas ou marcantes, condições econômicas, lugar de origem e redes de convivência.
Ao considerarmos a combinação desses elementos — vieses humanos, cultura, religião, história pessoal e contexto social — percebemos que os temas capazes de mobilizar, preocupar ou interessar as pessoas tornam-se praticamente ilimitados.
As redes sociais e a formação das bolhas
Ocorre que, atualmente, com a ampla difusão e intensa utilização das redes sociais, cada indivíduo passou a poder selecionar com grande facilidade os assuntos que mais lhe interessam. Além disso, os próprios algoritmos reforçam esse processo, ao identificar preferências do usuário e oferecer continuamente conteúdos relacionados aos mesmos temas. Como consequência, cada pessoa tende a permanecer cada vez mais imersa em sua própria bolha de interesses.
Diante da enorme diversidade de possibilidades, torna-se mais difícil que os interesses de uma pessoa se alinhem aos das pessoas próximas. Isso prejudica significativamente o processo de troca de ideias, inclusive no convívio com familiares, amigos e outros círculos de proximidade. Aquilo que antes era alimentado por experiências comuns, conversas presenciais e referências compartilhadas passa a ser substituído por trajetórias informacionais cada vez mais individualizadas.
“Brain rot” e a fragmentação da atenção
As consequências dessa forma de isolamento já vêm sendo amplamente observadas. Um sinal expressivo disso foi a escolha de “brain rot” (Derretimento do cérebro) como a Palavra do Ano de 2024 pela Oxford University Press. A expressão passou a representar a preocupação crescente com a deterioração — real ou percebida — da capacidade mental e intelectual das pessoas em razão do consumo excessivo de conteúdos digitais triviais, fragmentados ou pouco desafiadores, especialmente nas redes sociais.
Há também outros relatos e estudos apontando na mesma direção: perda de atenção sustentada, redução da tolerância a textos longos, empobrecimento do debate público, isolamento em bolhas de interesse, dificuldade crescente de escuta e enfraquecimento das conversas presenciais. Não se trata apenas de uma mudança tecnológica, mas de uma transformação profunda na forma como as pessoas pensam, se informam, se relacionam e atribuem importância aos assuntos da vida cotidiana.
Recuperar a conversa
Para enfrentar esse processo, não parece suficiente apenas criticar as redes sociais ou recomendar que as pessoas reduzam seu tempo diante das telas. Embora essa redução possa ser necessária, o ponto essencial é reconstruir deliberadamente os espaços de convivência, escuta e troca com as pessoas próximas.
Isso exige uma mudança de atitude. É preciso recuperar o hábito da conversa sem pressa, da escuta verdadeira, da atenção ao outro e da disposição para tratar de assuntos que não sejam apenas aqueles selecionados pelos nossos próprios interesses ou reforçados pelos algoritmos. Em outras palavras, é necessário sair, ainda que parcialmente, da própria bolha.
Uma forma concreta de fazer isso é valorizar encontros presenciais, refeições em comum, caminhadas, telefonemas, conversas familiares e momentos de convivência nos quais o celular não ocupe o centro da atenção. Também é importante buscar temas compartilháveis: lembranças, projetos, dificuldades, livros, filmes, acontecimentos locais, questões familiares, experiências pessoais e preocupações comuns.
Evitar o chamado brain rot passa igualmente por recuperar práticas que exigem maior continuidade mental: ler textos mais longos, conversar com profundidade, escrever, estudar, ouvir opiniões diferentes, contemplar o silêncio e permitir que o pensamento se desenvolva sem a interrupção permanente de estímulos rápidos e fragmentados.
A tecnologia deve servir à vida
O desafio, portanto, não é abandonar a tecnologia, mas recolocá-la em seu devido lugar. Ela deve servir à vida humana, e não substituir os vínculos, a atenção, a reflexão e a convivência. Restabelecer o contato com as pessoas próximas significa recuperar uma parte essencial da nossa humanidade: a capacidade de compartilhar experiências, construir sentido em comum e reconhecer no outro alguém que não é apenas um perfil, uma opinião ou uma preferência algorítmica, mas uma presença real em nossa vida.
E, por que não, em alguns momentos, permitir-se também o auxílio civilizatório de uma boa taça de vinho — não como fuga, mas como convite à descontração, à conversa mais solta e à redescoberta do prazer simples de estar junto.
Secretário (Rj), agosto de 2026
Luiz Carlos F.Santos
Sobre o autor

Luiz Carlos F. Santos
Engenheiro civil que procura articular complexidade, relevância, razão e colaboração para refletir sobre o ser humano, a sociedade e os desafios da convivência contemporânea.