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Em “Grupo Crítica Radical: uma história de luta pela emancipação humana”, Dalton Rosado recupera meio século de uma trajetória política que começou na resistência à ditadura militar e desembocou numa crítica radical da própria sociedade capitalista. O texto percorre a luta pela anistia, a organização dos movimentos populares, a experiência da Administração Popular de Fortaleza e os conflitos de uma esquerda que recusou a conciliação política.Mas o relato não se limita à memória. A partir dos anos 2000, Dalton descreve uma ruptura teórica decisiva: o reencontro com Marx pela crítica da economia política e a percepção de que a emancipação humana não pode significar apenas administrar de outra maneira o Estado, o trabalho e o dinheiro. Diante da crise do trabalho produtor de valor e dos limites históricos do marxismo tradicional, o Grupo Crítica Radical passa a questionar as próprias categorias que estruturam a sociedade capitalista.É, portanto, uma história de militância, ruptura e transformação teórica. Uma trajetória que atravessa cinquenta anos sem abandonar sua questão fundamental: como superar o capital e construir uma sociedade verdadeiramente emancipada?
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Grupo Crítica Radical-uma história de luta pela emancipação humana-um texto de Dalton Rosado
Primeira fase (de 1975 a 1999)
Nos idos de 1974 chegava a Fortaleza o casal Jorge Romeu Paiva e Célia Zanetti, ele mineiro de Bárbara Heliodora, mas radicado em São Paulo, e ela paulista de Casa Branca, residindo também na cidade de São Paulo. Ambas universitários e ligados ao movimento estudantil do final dos anos 60.
Vinham fugindo da perseguição da ditadura militar e passaram por vários Estados (inclusive foi em Recife que nasceu a filha do casal, Juliana, na clandestinidade) até chegarem em Fortaleza, onde foram acolhidos pela militante Rosa Maria Ferreira da Fonseca, que acabara de sair da prisão onde fora encarcerada pela mesma ditadura militar.
Com a chegada dos Estados unidos de Professora Maria Luíza Fontenelle, que estava regressando de um doutorado naquele país, formou-se o quarteto que iniciaria no Ceará a “Luta pela Anistia aos presos políticos”, engrossando o movimento que em São Paulo ganhava força.
A luta pela anistia aos presos políticos ganhou visibilidade crescente e a professora Maria Luíza foi lançada pelo grupo de orientação marxista do movimento operário e se elegeu em 1978 como Deputada Estadual pelo MDB.
A então Deputada Estadual Maria Luíza exerceu destacada atuação parlamentar em defesa dos movimentos populares (de mulheres, sindicais, de moradias, etc.).
A atuação parlamentar vigorosa se aliou à criação do CDOP – Comitê Democrático Operário Popular – e o grupo passou a ter uma inserção cada vez mais abrangente e atuante na defesa dos direitos sociais mais gerais numa postura que incentivou a participação de outros movimentos e grupos de esquerda que até então se mantinham clandestinos.
O grupo se opôs à transição transada que anistiou os ditadores e seus crimes.
No ano de 1980 foi fundado o Partido dos Trabalhadores em Fortaleza após o advento do pluripartidarismo.
A deputada Maria Luíza, na esteira do seu trabalho parlamentar e conexão com o grupo que mantinha ligação com o clandestino PRC – Partido Revolucionário Comunista (uma dissidência do PC do B) se reelegeu Deputada Estadual pelo MDB em 1982, agora já com ampla visibilidade e participação nos eventos políticos que se formavam, inclusive com o movimento “Diretas Já!”, que mobilizou milhões de brasileiros e no Ceará teve expressiva participação, mas terminou com a derrota da Emenda Dante de Oliveira e com a conciliação mais uma vez ocorrida que resultou no Colégio Eleitoral e na eleição de Tancredo Neves pelo MDB e tendo como vice-Presidente José Sarney, que migrara do partido da ditatura para o partido da oposição consentida (O MDB), e paradoxalmente, tornou-se Presidente do Brasil com a morte antes da posse de Tancredo Neves (o paradoxo consiste no fato de que o Presidente do Partido da Ditadura, o PDS, migrou para a oposição de modo oportunista e se tornou Presidente após a derrubada da ditadura que apoiou. Coisas do Brasil elitista).
Em 1985 a Deputada Estadual Maria Luíza e seu grupo se filia ao PT – Partido dos Trabalhadores – onde já lá estavam militantes do grupo como o advogado Dalton Rosado do Centro de Defesa dos Direitos Humanos criado pelo Cardeal Aloisio Lorscheider e outros ligados aos movimentos eclesiais de base da Arquidiocese de Fortaleza, que defendeu bandeiras humanistas em aliança com os movimentos populares.
No mesmo ano foi a provada a Emenda Mauro Benevides que restabeleceu a eleição para Prefeitos de capitais que antes eram nomeados por governadores que por sua vez eram indicados pela ditadura militar. As eleições previam um mandato tampão de 3 anos.
Maria Luíza foi escolhida candidata à Prefeitura pelo PT tendo como candidato a Vice-Prefeito o Professor Américo Barreira em oposição ao Deputado Federal Paes de Andrade, tido como favorito, e outros.
A campanha eleitoral, fortalecida pelo histórico de luta dos movimentos sociais do grupo ganhou crescimento exponencial e empolgou a cidade que terminou por eleger a primeira mulher para um cargo executivo no Brasil e de orientação marxista tradicional. Uma resposta à altura do que antes havia ocorrido com a conciliação nacional feita pelas elites em concordância com segmentos da esquerda.
As Prefeituras eram meras secretarias dos governos estaduais e federais posto que não havia sequer sido eleita a Assembleia Nacional Constituinte que promulgou a Constituição de 1988 e restabeleceu a autonomia financeira dos municípios parra vigorar em 1989, quando Maria Luiza já estava fora do Poder Municipal.
Assim, a eleição de Maria Luíza se deu por conta de vários fatores, entre eles uma completa falência das finanças municipais com receita inferior às despesas (que antes eram socorridas pelos governos Estaduais e Federais), problema que lhe caiu no colo e com a incumbência para dar respostas ao povo que a elegeu.
Apesar de todas as dificuldades a Administração Popular conseguiu sanear as finanças públicas municipais com a redução de salários de funcionários fantasmas (cerca de 15 mil); acabou de vez com a tradicional corrupção nas obras públicas; apoiou os movimentos populares (principalmente a defesa dos despejos frequentes de moradores de favelas; apoiou os movimentos sindicais; e jamais fez a conciliação política com os governos de Tasso Jereissati e José Sarney, opção que lhe custou uma perseguição odiosa.
Ressalte-se que a esquerda como PC do B e PDT, e até o próprio PT, lhe fez oposição auxiliados por uma campanha midiática e boicotes de toda natureza, desde retenção de verbas para pavimentação até a proposital negligência da coleta do lixo por empresas privadas. Talvez tenha sido a mais ferrenha perseguição política brasileira a um governo que manteve a sua dignidade de princípios de defesa do povo sem enganação e sem renunciar aos seus princípios.
Dessa divergência de postura política e denúncia da transição transada que tantos males causou ao Brasil nesses 40 anos de restabelecimento do chamado “estado democrático de direito” veio a eleição para a sucessão de Maria Luíza com a indicação como candidato a candidato no PT do então Secretário de Finanças do Município Dalton Rosado.
Desde cedo ficou claro que a direção do PT não aceitaria a indicação de mais um candidato do grupo, e mesmo havendo maioria no diretório municipal para a escolha, o grupo foi expulso do PT e teve que concorrer por outro partido (o Partido Humanista, em formação e que não se consolidou posteriormente), sem tempo de televisão e massacrado pela mídia. Perdemos a eleição como era de se esperar, mas não perdemos a dignidade e os princípios que sempre nortearam as ações do grupo. Saímos pobres e moralmente ricos.
Ciro Gomes, eleito, encontrou uma Prefeitura saneada e com centenas de projetos bem elaborados e engavetados nos Ministérios de Brasília (os funcionários nos Ministérios ao receberem nossos projetos nos comparavam às Prefeituras do Sul, sempre com muitos projetos e com lobby forte), prontos para serem liberados (as equipes técnicas ministeriais já haviam aprovado) graças ao apoio de Tasso e Sarney. Em Brasília é assim, o critério do dinheiro obedece ao interesse político subserviente.
Ainda hoje Ciro se beneficia do fato de ter sido considerado em apenas um ano o melhor Prefeito do Brasil e já no ano seguinte ser governador do Estado do Ceará na sucessão de Tasso, seu padrinho.
Ainda preso à política o grupo elegeu Maria Luíza para Deputada Federal em 1990 e Rosa Fonseca para vereadora em 1992 cujos mandatos honraram a trajetória de lutas dessas mulheres que já pertencem à nossa história.
Rosa Fonseca, Célia Zanetti e Sandra Helena estão no panteão dos heróis do povo.
Segunda fase (do ano 2.000 em diante)
Algumas questões inquietavam o grupo sem que houvessem respostas no marxismo do movimento operário que até então norteava as ações revolucionárias do grupo.
Por que a classe operária, tida como sujeito revolucionário, estava sendo demitida dos seus postos de trabalho e substituída predominantemente por máquinas de alta tecnologia, a exemplo do que ocorria na ferramentaria da Esmaltec-Tecnorte, empresa metalúrgica?
Por que a administração do aparelho de Estado nos níveis municipais, estaduais e federais, nunca servem de apoio à superação da miséria causada pelo capitalismo, mesmo quando o poder político estatal é exercido por membros da esquerda com sensibilidade humanista?
Por que o parlamento burguês é sempre ocupado majoritariamente por parlamentares de direita que dão as costas para o interesse do povo, e minoritariamente por membros da esquerda que legitimam as leis injustas com sua presença sempre derrotada?
Por que os salários se reduzem e o movimento sindical se vê obrigado a mendigar empregos e aceitar redução salarial sem força reivindicatória?
Por que a esquerda muitas vezes nega seus pressupostos em nome de uma sobrevivência financeira partidária e sindical que se constitui como uma traição aos interesses fundamentais do povo em troca de migalhas como bolsas de ajuda financeira de sobrevivência abaixo da linha da miséria?
Por que a vida tem que opor os indivíduos sociais (transformados em cidadãos) aos seus irmãos numa luta cotidiana fratricida marcada pela violência de uma convivência que torna cada pessoa adversária da outra e da violência urbana aonde uma bala perdida encontra a cabeça de uma vítima inocente?
Por que perdemos a nossa sensibilidade humanista e nos tornamos cruéis?
Por que, por que, por que…?
Foi preciso coragem para deixar o poder mesmo tendo prestígio popular para continuar recebendo as “boquinhas” do poder político estatal.
Foi então que lendo Karl Marx na sua obra “Grundrisse”, em espanhol (só veio a ser publicada em português em 2011, pela Editora Boitempo) e que se refere aos rascunhos dos seus estudos, que pudemos compreender aquilo que já estava contido de forma resumida nos três livros de “O Capital”, mas que não tínhamos compreendido de forma mais clara.
Ali, numa passagem conclusiva, Marx afirma:
“A troca do trabalho vivo por trabalho objetivado, o por do trabalho social na forma de oposição entre capital e trabalho assalariado, é o último desenvolvimento da relação de valor e da produção baseada no valor …
… elas constituem as condições materiais de fazê-lo voar pelos ares..” (págs. 587 a 589, Grundrisse, Boi tempo, edição de 2011)
É óbvio que o trabalho vivo, assalariado, abstrato porque produtor de valor, uma vez substituído preponderantemente pelo trabalho objetivado, das máquinas, que não produz valor, colocaria em xeque toda a lógica do valor seja sob o ponto de vista de reprodução exigida pela sua própria lógica como condição existencial, seja pela insustentabilidade de toda a entourage institucional e paraestatal que lhe dá sustentação. É o que está ocorrendo na atualidade.
É interessante considerar que o Marx dos “Grundrisse” e de “O Capital”, escrito há 160 anos, prospectou o que hoje nós estamos a observar, ou seja, que o capitalismo afunda pelos seus próprios pressupostos e a sua lógica genocida nos ameaça como espécie seja pela barbárie que possa vir a se instalar (e que já está em curso, basta abrir o noticiário ou a janela de uma casa ou transitar numa rua escura); pela possibilidade técnica de explosão nuclear que elimine a vida vegetal e animal no planeta; ou ainda pelo aquecimento planetário decorrente do efeito estufa provocado pelos monóxidos de carbono expelidos na atmosfera pelo capital industrial.
O marxismo do movimento operário, ou tradicional, mais conhecido, e que fracassou nos seus pretensos postulados, não dava respostas aos fatos atuais justamente porque fez uma revolução contra o capital, mas continuou operando sob o capital. Ora, se o capitalismo é quem cava a sua própria sepultura, como disse Marx, jamais poderia sob seus próprios pressupostos dar um resultado diferente do que deu: uma volta ao capitalismo de mercado sem nenhum pejo. Marx foi traído, a menos que sua teoria estivesse equivocada, como queriam os economistas e políticos burgueses.
Ao optar por caminhar pela trilha mais íngreme da busca pelos cimos luminosos da emancipação humana com o Marx da crítica da economia política o grupo teve que cortar na carne; viver sem recursos da política e das tetas do Estado; contrariar o comodismo do movimento sindical que garante estabilidade de emprego para diretores, imposto sindical e verbas dos filados contribuintes, para negar o próprio trabalho como pedra fundamental da construção do capital; renunciar à organização partidária e sua verticalidade de mando opressor, bem como às polpudas verbas partidárias (hoje orçadas em quase um US$ 1 bilhão e paga pelo povo); perder apoio de quem apoia esperando ser retribuído pelo poder público estatal; e por aí vai…
Mas vale a pena estar do lado que a cada dia se torna mais coerente com a emancipação humana e que por isso pode crescer em credibilidade junto a quem não tem medo do presente e luta por um futuro diferente do que está posto e segue em frente confiante e disposto aos sacrifícios próprios à caminhada sem privilégios falsos e sem hipocrisia.
As coisas ficam clareadas quando se tiram as vendas dos olhos; agora estamos no caminho certo e certos de que chegaremos ao destino.
Anti-fetichistas de todo o mundo, uni-vos.
Fortaleza,agosto de 2026
Dalton Rosado.
Sobre o autor

DALTON ROSADO É ADVOGADO, ESCRITOR, ARTICULISTA DE JORNAIS E BLOGUES E COMPOSITOR NASCIDO NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. VIVE E MILITA NA CIDADE DE FORTALEZA, CIDADE QUE O ACOLHEU, ONDE FAZ PARTE DO GRUPO CRÍTICA RADICAL DE FORTALEZA