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Em “O pêndulo da ineficácia”, Dalton Rosado parte do crescente desinteresse pelas eleições para formular uma crítica que ultrapassa o desgaste dos partidos e governos. Para o autor, a alternância entre direita e esquerda funciona como um pêndulo: muda a direção do movimento, mas permanece intacta a estrutura da sociedade produtora de mercadorias.À luz da crítica do valor, o texto relaciona a crise da política à crise estrutural do capitalismo, expressa no desemprego, na precarização, no endividamento público, na destruição ambiental e na expansão da barbárie. A desesperança resultante desse processo abre espaço para soluções autoritárias e para a naturalização da violência.Dalton Rosado, porém, encontra no próprio esgotamento dessa ordem a possibilidade de ruptura. “O pêndulo da ineficácia” é uma crítica às ilusões da alternância política e um chamado à construção de uma perspectiva de emancipação humana.
Ouça aqui o áudio deste post

O pêndulo da ineficácia-um ensaio de Dalton Rosado
A democracia é uma arapuca”
Anselm Jappe
A última pesquisa de opinião pública da Quaest indicou que 78% da população não tem interesse nas eleições deste ano (entre 47% de pouco interessado e 33% nada interessado).
O desinteresse eleitoral atual já poderia ser identificado pelo processo de alternância de escolhas de candidatos com perfis ideológicos distintos a cada ciclo eleitoral como decorrência do desgaste próprio ao papel ineficaz de fiel escudeiro do capitalismo cumprido pelas administrações do Estado.
Denomino a alternância na administração pública estatal como um “pêndulo da ineficácia”, ou seja, algo que se move e volta sempre para o mesmo lugar como aqueles dos relógios antigos de paredes, sem que nada se altere para melhor, e não raro, para pior, como ora ocorre.
Tais administrações têm posturas distintas, mas sempre dentro do desiderato inafastável de defesa do capitalismo; assim são duas as vertentes ideológicas estatistas, quais sejam:
- a direita, nos seus mais diversos ramos (de ditaduras militares a democracias plutocratas) exercita, desde Adam Smith, seu tradicional liberalismo clássico de arrecadação de impostos e redução de gastos com as demandas sociais e aumento destes tributos para gastos com o aparato militar repressor (polícias civis, militares e exércitos), fazendo o controle da emissão monetária de modo a lubrificar o fluxo das relações mercantis. Trata-se do conhecido Estado mínimo da opressão máxima;
- a esquerda sob o argumento de defesa das demandas sociais e interesses da classe trabalhadora, sem questionar dita classe como artífice do capitalismo e com uma postura de falso bom samaritanismo, conserva intactas todas as categorias capitalistas (valor, dinheiro, trabalho abstrato e trabalhador, com a bandeira parcialmente protecionista contra a escravidão direta da extração de mais valia, mas sem pretender aboli-la, mercadorias, mercado, partidos políticos, política, impostos, e o próprio Estado como ente indispensável), numa postura que nada mais é do que a impossível administração da crise do capitalismo no seu estágio atual de limite implosivo dos seus próprios fundamentos.
São dois cegos que não têm o menor interesses em ver a luz; até porque o pior cego é o que não quer ver.
Os exemplos de alternância no poder estatal capitalista via eleição são constantes e decepcionantes para uma população exaurida por múltiplos fatores, dentro os quais podemos destacar:^
- Desemprego e subemprego estrutural causado pela mecanização da produção de mercadorias e serviços;
- Pela falência crescente das contas públicas em decorrência da depressão capitalista fruto da contradição entre a necessidade de atendimento das demandas públicas e investimentos em infraestrutura da produção (estradas, energia, portos marítimos e fluviais, etc.);
- Pela extração de mais valia e cobrança de impostos para pagar uma dívida sobre a qual incidem juros escorchantes (no Brasil de 14% ao ano, que consome grande parte do orçamento fiscal;
- Pelo aquecimento global que tem provocado eventos catastróficos cada vez maiores, sem que se elimine a irracionalidade da emissão dos combustíveis fósseis (no Brasil se comemora a descoberta de grandes potenciais de extração de petróleo no Amapá, e até na Colômbia pela Petrobras);
Etc.,etc., etc.
A desesperança tem provocado os mais diversos comportamentos sociais, principalmente entre os jovens das periferias brasileiras, e o mais apavorante deles é a naturalização da barbárie e a adesão ao crime organizado, que tem funcionado como estado paralelo a vender uma falsa proteção aos cidadãos, e a extorquir uma população já exaurida economicamente.
Enquanto isso ocorre não se vê entre os candidatos a abordagem sobre o fator de base desse quadro de anomia social que é a próprio sistema capitalista em decomposição orgânica.
Aliás, como poderia um candidato defender a superação radical daquilo no qual ele está inserido??? Quando muito, aparece um candidato metido a outsider e ignorante falacioso ilusionista, que se diz antipolítico, mas que o quer mesmo é ser eleito pela política, a fazer bravatas contra a mau funcionamento institucional, para em seu lugar colocar posturas ditatoriais conservadoras das categorias capitalistas que ele diz querer consertar, mas manter e desenvolver!!!!
Todos os políticos falam na promoção da retomada do desenvolvimento econômico, que nada mais é do que mais capitalismo, proposição impossível de ocorrer no estágio atual, e ainda assim, mantenedor da eterna escravização indireta do trabalho abstrato, e essa é uma unidade denunciadora da mesmice de todos eles.
A direita tem avançado diante da desesperança do povo com medo do novo que é desconhecido por inconsciência crítica. A população desassistida e explorada não percebe que o novo (por ela desconhecido) representa a ruptura consistente com um modo de viver que já não se viabiliza minimamente; desconhece que há possibilidades de um novo modo de viver que aponta para o descortino luminoso de novos horizontes, principalmente por conta de todo o saber adquirido pela humanidade e que pode ser colocado a seu favor, e não contra ela, como ora ocorre; e que isso só pode ocorrer com as superação da sociedade patriarcal e seu sistema produtor de mercadorias.
O velho que era ruim, mas conhecido e menos catastrófico que o presente, é o que está na base do retrocesso civilizatório que faz com que a população amedrontada e insegura adira a cantilenas conservadoras e falsas da “ordem e do progresso (burgueses)”.
Entretanto, apesar de tudo, nunca estivemos tão próximos da possibilidade de rompimento com milênios de escravidão humana, seja ela direta, quando alguns são donos de muitos, e os tratavam como animais irracionais, e por aqui isso existiu há pouco amis de 130 anos), ou pela escravidão indireta do trabalho abstrato produtor de valor do qual se extrai mais-valia que alimenta o capital, ora precarizado e em rota de colapso endógeno e exógeno.
Assim, este artigo representa uma análise das razões sociológicas, antropológicas e ideológicas daquilo que afirmou a pesquisa: há uma perigosa desesperança como campo fértil para o retrocesso; mas ao mesmo tempo há, como dissemos, a possibilidade de um salto consciente para a emancipação humana.
Chega de mesmice desesperançosa; chega de inconsciência social; viva a sociedade consciente de si mesma; digamos adeus às ilusões burguesas; pela emancipação humana já!
Vamos construi- la
Fortaleza, agosto 2023
Dalton Rosado.
Sobre o autor

DALTON ROSADO É ADVOGADO, ESCRITOR, ARTICULISTA DE JORNAIS E BLOGUES E COMPOSITOR NASCIDO NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. VIVE E MILITA NA CIDADE DE FORTALEZA, CIDADE QUE O ACOLHEU, ONDE FAZ PARTE DO GRUPO CRÍTICA RADICAL DE FORTALEZA
muito pertinente