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Reflexões [her]éticas -Alaor Junior

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 5 leitura mínima

Fiquei muito feliz com a possibilidade de escrever aqui no blog. Sou psicólogo, tento manter uma percepção diferenciada do mundo, a qual fui acostumado a adotar, por necessidade imperativa, que me permitisse lidar com a realidade distópica que assombra a sociedade.

Entendo que tal sentimento é o que mobiliza o extremo desconforto de muitos que aqui estão, posicionados contra o circo político-econômico que teima em estender suas lonas (garras) sobre nossas cabeças, a malícia já começa na insistência vulgar, hipócrita e venal de manter uma covarde estratificação de classes e poderio seletivo.

Norteio a prática clínica pelo viés psicanalítico, não tenho formação específica (diplomação em psicanálise), porém, anos de análise pessoal, grupos de estudo, supervisão e leituras me conferiram bagagem e referenciam meu exercício, sempre pautado pela ética do desejo e do bem falar.

Confesso que sou avesso aos ‘clubinhos’ herméticos que se fecham em torno da teoria, tornando-a inacessível às massas, e sua prática, por vezes, distante dos bolsos mais frágeis, que se pense num elitismo, perpetuando um lugar de supostos saberes que repousam em pedestais santificados, espelhando o que o patriarcado faz com a dita ‘plebe’, a serviço do capital. Nunca a preocupação verdadeira é com o humano, esse é o embuste.

E é por isso que resolvi confessar a minha heresia (substantivá-la em texto), lugar outorgado pelas narrativas dos que se dobram à utopia do capitalismo, que vende, falaciosamente, o acesso igualitário aos prazeres e benesses, aos incautos adormecidos nas ilusões, o Éden no topo da pirâmide. Coitadas das massas, ainda presas nas necessidades básicas, mal resolvidas…

A venda da ilusão vem como ferramenta de manipulação, domesticação. Grosso modo, a palavra herege vem do grego ‘Hairetikós’, ou seja, aquele que tem liberdade de escolha. Pois, realmente luto para que essa realidade seja disseminada. Sou herege sim, com todo o prazer e dever profissional, aliás, prefiro sê-lo em pecado, descontruindo as mentiras capitalistas, dos tradicionalismos familiares, dos valores do colarinho, da pureza das damas.

Me sinto um estrangeiro, mergulhado num mar de delírios sociais, não tão gostosos quanto os expressos no Jardim das Delícias, de Boch, porém alinhados ao estranhamento que os textos que Clarice Lispector nos provocam. O patriarcado é um grande gigolô, prostitui a sociedade, dama suscetível, dando ganhos aos oportunistas que se lambuzam nos lucros do capital, e toda a engrenagem de fantasias que promove estratificação social e encaixota desejos possíveis, dentro de um suposto escalonamento autorizado pelas elites dominantes, e me questiono, autorizadas por quem? Poderio financeiro? Sangue azul? Túmulo dourado? Deus?

O encabrestamento transcende a antiga compra de votos e concessão de favores, tão usual nos coronelismos cafeeiro, leiteiro, cacaueiro e/ou do látex, hoje o capitalismo se assenta pela venda conceitual de um empreendedorismo barato, proposta ofertada aos vassalos, que exige ainda mais suor e sangue dos que desejam atingir metas de vida, diga-se, longínquas, inatingíveis, utópicas.

E toda a manipulação vem apoiada em ferramentas, como a religiosa, afins ao (des)regramento e à ignorância que emanavam no feudalismo. Pois é, ainda estamos na idade das trevas, e as possibilidades de rechaço de uma burguesia mofada, que se acha no direito de transpirar soberba é o que acende as brasas do ‘inferno’ que prefiro pisar, bem distante de uma sociedade de rebanho, do atualíssimo coronelismo bovino.

Antes atravessar campos de abróteas e pecar sob rótulo de herege, ou até comunista, do que formar fileira com os ‘profetas’ do capital. Pelo menos escrevendo e falando, garanto que tal catarse me permita dividir forças com os que enfrentam, com coragem e determinação, a subserviência que o sistema insiste em nos impor.

Tenho preces e rogos reais que são avessos aos atravessadores, seja das riquezas, seja da fé paradisíaca, seja das dores sociais, seja das facilidades econômicas, seja pelo jugo laboral.

Paz, prazer e felicidade são direitos humanos, inerentes a todos e não merecem engessamento ou formato determinados por minoria que coloca preço no caráter e condição de vida alheios. Nem se preocupem, já me excomunguei…

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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