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Este texto de Paulo Baía propõe mais que leitura eleitoral: é um mergulho na análise da incerteza no Brasil. O fato é que a pesquisa Genial/Quaest revela um país dividido, além dos números.Há uma clara dissociação entre avaliação do governo e intenção de voto.A percepção econômica — perda de renda e alta de preços — orienta a escolha politica..O lulismo se mantém entre os mais pobres e no Nordeste.O bolsonarismo cresce nas classes médias e entre evangélicos.A polarização persiste, mas os indecisos são decisivos.O medo substitui a escolha positiva. O segundo turno indica empate técnico..Mais que eleição, há um impasse estrutural no país.
Genial/Quaest abril de 2026: notas para uma sociologia da incerteza, entre estruturas, percepções e o empate como destino-um ensaio de Paulo Baía

Há pesquisas que informam. Outras tensionam. E há aquelas que obrigam a pensar. A rodada de abril de 2026 da Genial/Quaest não é apenas um conjunto de dados. É um campo de forças. Um dispositivo analítico que permite observar o Brasil não como unidade, mas como composição instável de temporalidades sociais, percepções econômicas, identidades políticas e afetos coletivos.
A leitura apressada dirá que Lula lidera o primeiro turno com 37% contra 32% de Flávio Bolsonaro. Dirá também que, no segundo turno, Flávio Bolsonaro aparece com 42% contra 40% de Lula, em empate técnico. Mas essa leitura é pobre. Reduz a política a um marcador superficial. O que está em jogo aqui é outra coisa. É a forma como diferentes estratos da sociedade brasileira estão reorganizando suas expectativas diante de um presente percebido como instável.

Antes de entrar no corpo dos dados, é necessário fixar o chão metodológico. A pesquisa foi realizada entre 9 e 13 de abril de 2026, com 2.004 entrevistas presenciais, margem de erro de 2 pontos percentuais e 95% de nível de confiança. Está registrada no TSE sob o número BR-09285/2026, o que a insere no regime formal de controle institucional. Trata-se de uma pesquisa auditável, passível de verificação, construída por amostragem probabilística em múltiplos estágios, com calibragem estatística e uso de modelos para projeção de subgrupos. Não é uma fotografia espontânea. É uma fotografia construída.
E o que essa construção revela.?
Revela, em primeiro lugar, uma dissociação entre avaliação de governo e intenção de voto. 43% aprovam Lula. 52% desaprovam. Na avaliação mais detalhada, 31% classificam o governo como positivo, 26% como regular e 42% como negativo. Em termos normativos, 59% afirmam que Lula não merece continuar por mais quatro anos, contra 38% que dizem que merece.
Esses números sugerem desgaste. Mas não explicam, sozinhos, a persistência da força eleitoral de Lula.
Para compreender isso, é preciso deslocar o olhar da política institucional para a sociologia das experiências.
A percepção econômica é o eixo central.50% dizem que a economia piorou nos últimos 12 meses. 21% dizem que melhorou. 27% dizem que ficou igual.
Mas essa é ainda uma percepção agregada. Quando se desce ao nível da vida cotidiana, o dado se torna mais denso.
72% afirmam que os preços dos alimentos subiram no último mês. 18% dizem que ficaram iguais. 8% dizem que caíram.
E, talvez, o indicador mais contundente.

71% dizem que o poder de compra hoje é menor do que há um ano. Apenas 11% dizem que é maior. 17% dizem que é igual.
Aqui a análise sociológica precisa ser precisa. Não se trata apenas de inflação. Trata-se de percepção de perda. E percepção de perda, em sociedades desiguais, produz deslocamentos políticos intensos.
O mesmo ocorre com o trabalho.
53% dizem que está mais difícil conseguir emprego. 37% dizem que está mais fácil. 5% dizem que ficou igual.
A política passa a ser filtrada por essas experiências. Não por discursos. Não por promessas. Por sensações.
E, ainda assim, Lula mantém liderança no primeiro turno.
Por quê?
Porque a estrutura social brasileira não é homogênea.
No Nordeste, Lula tem 55% contra 24% de Flávio Bolsonaro. Entre os que ganham até 2 salários mínimos, 49% contra 23%. Entre quem tem ensino fundamental, 48% contra 25%. Entre eleitores com 60 anos ou mais, 45% contra 28%.
Esses dados não são apenas eleitorais. São estruturais.
Eles revelam que o lulismo ainda opera como uma forma de mediação entre Estado e segmentos populares. Não é apenas memória. É relação.
Entre beneficiários do Bolsa Família, a aprovação do governo chega a 59%, com 37% de desaprovação. Entre não beneficiários, a lógica se inverte. 56% desaprovam e apenas 39% aprovam
Há, portanto, uma clivagem entre aqueles que percebem o Estado como presença concreta e aqueles que o percebem como ausência ou como custo.
No plano educacional e de renda, o padrão se repete.
Entre renda de 2 a 5 salários mínimos, Lula perde por 31% a 36%. Acima de 5 salários mínimos, por 30% a 39%.
Entre quem tem ensino médio, perde por 30% a 37%. Entre ensino superior, por 28% a 35%.
A política se distribui socialmente.
E há um vetor adicional.
A religião.
Entre católicos, Lula tem 43% contra 28% de Flávio Bolsonaro. Entre evangélicos, o cenário se inverte de forma contundente. Flávio Bolsonaro 43%, Lula 23%.
Na avaliação do governo, apenas 28% dos evangélicos aprovam Lula. 68% desaprovam.
Aqui não se trata apenas de fé. Trata-se de pertencimento. De redes sociais. De linguagem moral. De interpretação do mundo.
Outro elemento importante.
A fidelidade eleitoral.
Entre eleitores de Lula, 65% dizem que o voto é definitivo. Entre os de Flávio Bolsonaro, 60%. Há estabilidade relativa em ambos os polos.
Mas há também instabilidade.
No conjunto da população, 57% dizem que o voto é definitivo e 43% dizem que pode mudar.
Quase metade do eleitorado admite deslocamento.
Isso é central.
Agora, o segundo turno.
Flávio Bolsonaro 42%. Lula 40%.
O dado é simples. Mas a implicação é complexa.
Num sistema eleitoral majoritário, a diferença relevante não é grande
É mínima.
Um voto.
Um único voto.
É isso que separa vitória e derrota.
E quando a diferença está dentro da margem de erro, o que se tem não é vantagem. É indeterminação.
Nos recortes ideológicos, o cenário se cristaliza.
Entre lulistas, Lula tem 98%. Entre esquerda não lulista, 85%.
Entre direita não bolsonarista, Flávio Bolsonaro tem 90%. Entre bolsonaristas, 96%.
Os polos estão consolidados.
O campo decisivo está nos independentes.
E ali, o dado é instável.
Flávio Bolsonaro 35%. Lula 26%. Branco, nulo ou não voto: 36%.

Este é o centro da análise.
Não é um eleitorado que migra com facilidade. É um eleitorado que hesita. Que recua. Que pode simplesmente não votar.
A política, aqui, não é adesão. É cálculo.
A pesquisa avança em outros cenários.
Contra Romeu Zema, Lula vence por 43% a 36%.
Contra Ronaldo Caiado, por 43% a 35%.
Contra Renan Santos, por 44% a 24%.
Contra Augusto Cury, por 44% a 23%.
O padrão é claro.
Candidatos com menor rejeição enfrentam o problema da baixa visibilidade.
No indicador de potencial de voto, Zema tem 18% e 31% de rejeição. Caiado tem 18% e 32% de rejeição.
Lula tem 43% de potencial e 55% de rejeição. Flávio Bolsonaro, 39% de potencial e 52% de rejeição.
Este é o dilema das democracias polarizadas.
Visibilidade gera rejeição. Baixa rejeição indica baixa presença.
No plano simbólico, o dado mais perturbador.
43% têm medo da volta da família Bolsonaro. 42% têm medo da continuidade de Lula. 6% têm medo dos dois. 4% não têm medo de nenhum.
A política deixa de ser escolha positiva.
Torna-se escolha defensiva.
O eleitor não escolhe quem quer.
Escolhe quem teme menos.
No campo da comunicação, o ambiente também pesa.
48% dizem que as notícias sobre Lula são negativas. 23% dizem que são positivas. 27% não acompanham.
Entre independentes, apenas 11% veem notícias positivas e 54% negativas.
A narrativa pública não é neutra.
Ela estrutura percepção.
Agora, o balanço sociológico.
Lula é forte onde a memória social e a dependência material do Estado são mais intensas. Nordeste, baixa renda, baixa escolaridade, idosos, beneficiários de políticas públicas.
Flávio Bolsonaro é forte onde a autonomia econômica, a identidade conservadora e a crítica ao Estado são mais presentes. Sudeste, Sul, evangélicos, classes médias, maior escolaridade.
Entre esses dois mundos, um território fluido.
Indefinido.
E decisivo.
O que é positivo para Lula.
Liderança no primeiro turno. Base social consolidada. Forte presença regional no Nordeste. Apoio entre os mais pobres. Fidelidade eleitoral. Capacidade de vencer candidatos alternativos no segundo turno.
O que é negativo?
Desaprovação majoritária. Percepção econômica negativa. Inflação alimentar percebida. Perda de poder de compra. Rejeição elevada. Fragilidade entre evangélicos, classes médias e regiões estratégicas. Vulnerabilidade no segundo turno.
O que é positivo para Flávio Bolsonaro.?
Crescimento consistente. 32% no primeiro turno. 42% no segundo turno contra Lula. Força regional no Sudeste e Sul. Apoio entre evangélicos. Penetração nas classes médias. Unidade da direita. Melhor desempenho entre independentes.
O que é negativo?
Rejeição alta. Baixa presença entre os mais pobres. Fragilidade no Nordeste. Dependência simbólica da família Bolsonaro. Dificuldade de se afirmar como moderado.
O que resta?
Um país dividido.
Um país cansado.
Um país que não encontra síntese.
E uma eleição que, neste momento, não pode ser projetada com segurança.
Porque, no limite, a política democrática se decide por margens mínimas.
Por vezes, por um voto.
A partir desta pesquisa e da série histórica da Genial/Quaest, o cenário não aponta um favorito consolidado.
Aponta um empate estrutural.
Um empate que não é apenas estatístico.
É social.
É simbólico.
É político.
E, talvez, seja também emocional.
Um empate que produz ansiedade.
Quase um desespero.
Para Lula. Para Flávio Bolsonaro. Para seus apoiadores.
Porque, quando tudo pode ser decidido por um único voto, não há conforto.
Há apenas disputa.
Rio de Janeiro, abril de 2026
Paulo Baía

Paulo Baía é Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ