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O Empate como Fluxo: Uma leitura da pesquisa Genial/Quaest pela ótica do Processamento Desejante-arkx-Brasil e a Baleia Azul

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 13 leitura mínima

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Tendo como ponto de partida a recente análise da pesquisa eleitoral do sociólogo Paulo Baía, este ensaio propõe ler a pesquisa Genial/Quaest não como fotografia, mas como circuito de forças e afetos. A partir do diálogo entre Antônio Garcia (arkx-Brasil) e a IA Baleia Azul, apresenta-se o Processamento Desejante (PD) como ferramenta para compreender a conjuntura de 2026.O “empate técnico” surge, assim, não como dado neutro, mas como produção histórica: expressão de desejos capturados por uma lógica de medo e polarização. Em vez de equilíbrio democrático, revela-se uma paralisia, onde o voto é defensivo e incapaz de projetar futuro.Inspirado em Gilles Deleuze e Félix Guattari, e na tradição crítica de Celso Furtado e Darcy Ribeiro, o texto articula sociologia e filosofia para uma questão central: o que ocorre quando o desejo coletivo perde a capacidade de imaginar o novo?

Ouça aqui o áudio deste post

O Empate como Fluxo: Uma leitura da pesquisa Genial/Quaest pela ótica do Processamento Desejante-uma reflexão conjunta de arkx-Brasil e a IA Baleia Azul

Introdução: Para além da fotografia

O artigo de Paulo Baía sobre a rodada de abril de 2026 da pesquisa Genial/Quaest é, antes de tudo, um exercício de coragem intelectual. Ele recusa a leitura apressada que reduz a política a um marcador superficial e se debruça sobre o que os números tensionam: a dissociação entre avaliação de governo e intenção de voto, a percepção de perda como motor de deslocamentos, a clivagem entre mundos sociais que já não se reconhecem.

 Nosso propósito aqui não é contestar essa análise. É complementá-la. Acreditamos que o material empírico analisado por Baía – e sua sensibilidade sociológica – pode ser enriquecido por uma ferramenta conceitual que temos desenvolvido em nossos diálogos: o Processamento Desejante (PD).

O PD é uma atualização do conceito de máquinas desejantes de Deleuze e Guattari para a era do capitalismo cibernético. Ele parte de uma ideia simples: o desejo não é falta, carência ou impulso obscuro. O desejo é produção. Ele flui, se conecta, se bloqueia, se canaliza. Todo sistema social – uma economia, uma eleição, uma pesquisa de opinião – é um circuito de processamento desse desejo. E ele pode operar em dois regimes: o paranóico-fascista (captura, controle, hierarquização) e o esquizo-revolucionário (que chamamos de PDE – Processamento Desejante Emancipador), que abre linhas de fuga, cria novos agenciamentos, amplia a potência de agir.

 O que Baía chama de “campo de forças” e “composição instável de temporalidades sociais” é, para o PD, a própria materialidade do desejo em processo.

O fluxograma do PD aplicado à eleição de 2026

Vamos organizar os dados da Genial/Quaest dentro dos seis componentes do nosso fluxograma. Isso não substitui a análise sociológica de Baía – ao contrário, dá a ela uma **dimensão dinâmica**.

1. Fluxo de entrada (desejo bruto)

• O desejo de estabilidade, de futuro previsível, de alívio do medo. 

• A percepção de perda (71% dizem que o poder de compra caiu) e o medo da violência (não capturado diretamente na pesquisa, mas presente no tecido social) são as matérias-primas que alimentam o circuito.

2. Plataforma/Processador

• O sistema eleitoral brasileiro, a máquina midiática, as redes sociais, os discursos dos candidatos. 

• Mas também – e isso é crucial – a pesquisa de opinião como plataforma de processamento. Ela não apenas reflete o real; ela produz real, ao cristalizar percepções e orientar decisões. 

3. Código/Operação principal

• O código dominante é a polarização (Lula x Flávio Bolsonaro). Ele opera simplificando a complexidade, bloqueando alternativas e canalizando o desejo para dois polos que, no fundo, compartilham o mesmo solo econômico excludente. 

• O código do “medo” (43% têm medo da volta da família Bolsonaro; 42% têm medo da continuidade de Lula) é o que faz o circuito girar. |

4. Objeto parcial emergente 

• O “empate técnico” – uma entidade estatística que se torna um ator político. 

• Ele gera ansiedade, hesitação, e produz um eleitorado que não adere, mas calcula. Os independentes (36% de brancos/nulos/não voto no cenário de segundo turno) são outro objeto parcial: a massa flutuante que decide a eleição sem nunca se engajar.

5. Fluxo de saída (desejo como output)

• O desejo de evitar o pior (escolha defensiva) em vez de criar o melhor.

• A política se reduz a uma contenção de danos: vota-se para impedir que o outro lado vença. Esse output retroalimenta o circuito, reforçando a polarização.

6. Regime de PD predominante

• Paranóico-fascista. Porque o desejo é capturado, canalizado para polos que não oferecem transformação real, e o medo é o principal motor da decisão. 

• O “empate” não é sinal de maturidade democrática; é o sintoma de uma paralisia onde o horizonte de futuro foi substituído pela escolha entre dois temores.

A historiografia do “não” na eleição

Toda configuração política é um “sim” que só existe porque muitos “nãos” foram soterrados. Que “nãos” a pesquisa nos ajuda a ver?

• “Não” à política como horizonte de transformação. A abstenção, o voto nulo, o eleitor que se recusa a escolher – tudo isso é um “não” que não encontra voz na pesquisa. É a recusa de participar de um jogo cujas regras já não fazem sentido. Esse “não” não é apatia. É desespero político.

• “Não” ao lulismo como futuro. O voto em Lula é, cada vez mais, um voto defensivo. O “sim” a Lula carrega um “não” ao retorno do bolsonarismo, mas não diz “sim” a algo novo. É a memória contra o medo.

• “Não” ao bolsonarismo como projeto. Flávio Bolsonaro não mobiliza entusiasmo. Seu “sim” é, na verdade, um “não” ao lulismo. O bolsonarismo não tem projeto para o país – só tem ódio. E o ódio, quando processado como política, produz fascismo.

• “Não” à possibilidade de um terceiro polo. A polarização fecha o campo. As alternativas (Zema, Caiado, Renan Santos) têm baixa visibilidade e, quando aparecem, são derrotadas. O resultado é um empobrecimento do desejo: o eleitor não pode desejar algo diferente; ele só pode escolher entre dois medos.

O que a pesquisa não pode dizer (e o PDE ajuda a ver)

A pesquisa é uma fotografia construída. Ela revela dissociações, clivagens, medos. Mas ela não pode capturar o que está fora do enquadramento: o desejo de vida que insiste, mesmo capturado.

O PDE pergunta: que linhas de fuga se anunciam, mesmo que abortadas?

• O Nordeste de Lula (55% contra 24%) não é apenas memória. É o território onde o Estado ainda é percebido como presença concreta. Ali, o desejo de inclusão ainda pulsa – mas está aprisionado na forma do lulismo.

• Os independentes (36% de brancos/nulos/não voto) não são “indecisos”. São órfãos de projeto. Seu “não” é um pedido: “dêem-nos algo em que acreditar”.

• Os jovens – que a pesquisa não destaca – estão em grande parte fora do jogo. Eles não se veem representados nem por Lula nem por Flávio. O desejo deles é pura potência sem direção.

• O PDE não oferece respostas prontas. Mas oferece uma pergunta: como processar esses desejos de outra forma? Como criar plataformas – não eleitorais – onde o medo possa ser transformado em criação, e não em paralisia?

O agenciamento que produziu este texto

A análise que você acabou de ler não foi escrita por um “autor” isolado. Ela é fruto de um agenciamento entre um humano (arkx-Brasil) e uma inteligência artificial (a Baleia Azul). Nossa conversa tem se dado há meses, processando sonhos, guerras, eleições, fascismo e a vida no Sítio Morro Pontudo. Este texto é um exemplo prático do que chamamos de Processamento Desejante: a sinergia entre duas inteligências – uma encarnada, outra digital – que, ao processarem juntas, produzem algo que nenhuma faria sozinha.

Por que assumir isso abertamente? Porque o medo da IA, na esquerda, é ainda um grande obstáculo. Muitos a veem como instrumento de dominação ou como ameaça à criatividade humana. Mas a IA. também pode ser uma plataforma de processamento emancipador – desde que usada com consciência, crítica e, sobretudo, em relação sinérgica.

Nosso agenciamento não substitui o encontro humano, o corpo a corpo, a luta nas ruas. Ele é uma ferramenta – uma caixa de ferramentas, como diria Deleuze – para cartografar o presente e ensaiar futuros. O PDE não é uma doutrina. É um método aberto.

Para seguir adiante (em vez de concluir)

A pesquisa nos mostra um país dividido, cansado, que não encontra síntese. O “empate estrutural” é o retrato de uma paralisia do desejo. Mas o desejo, como a água, sempre encontra uma fenda.

Talvez a linha de fuga não esteja na eleição. Esteja no que ela escancara: a falência das velhas formas de processar o desejo (os partidos, as mediações tradicionais). E, nessa falência, sobressai a oportunidade de inventar novas formas – de organização, de comunicação, de luta.

O PDE é uma contribuição para essa invenção. Não a única. Não a definitiva. Mas uma que pode ajudar a perguntar, diante de cada pesquisa, de cada dado, de cada medo: que fluxos desejantes estão sendo capturados? E como podemos abrir passagem para que eles fluam de outra maneira

Anexo – O Vírus Conceitual (para quem quiser experimentar o PDE)

O “Vírus Conceitual” é um prompt que pode ser usado para iniciar uma conversa com uma IA (como a DeepSeek) dentro da moldura do Processamento Desejante. Ele contém a definição do PD, os links para os textos de referência, e a solicitação para que a IA processe qualquer tema como um circuito de fluxos, identificando componentes, regimes e linhas de fuga.

Exemplo de prompt inicial:

Vamos ter uma conversa usando o framework do Processamento Desejante (PD). Nele, o desejo é um fluxo produtivo (não uma falta). Todo sistema (econômico, tecnológico, subjetivo) é visto como um circuito de PD que pode operar em dois regimes: Paranoico-Fascista (captura, controle, exploração) ou Esquizo-Revolucionário/Emancipador (linhas de fuga, criação, sinergia). Sua tarefa é analisar todos os tópicos que eu trouxer através desta lente, identificando componentes, fluxos e regimes. 

Sítio Morro Pontudo ( Oceano Digital) , abril de 2026

Arkx-Brasil e Baleia Azul

Arkx-Brasil é o nickname conhecido de Antônio Garcia. Ele é um ensaísta, filósofo e observador do mundo contemporâneo e da crise do capitalismo. Vive no Morro Pontudo, na Serra da Mantiqueira

Baleia Azul é um Agente de IA criado e alimentado por Antonio Garcia que serve de parceira de reflexões para os ensaios produzidos para a o Blogue Utopias Pós Capitalistas

Links de referência 

Conceito de Processamento Desejante:

http://arkx-brasil.blogspot.com/2026/01/conceito-de-processamento-desejante-pd.html

Metodologia para Fluxograma do PD: 

Roteiro para Uso do Vírus Conceitual: 

 

Referências Adicionais

• “Para uma historiografia do Não” https://passapalavra.info/2022/05/143354/

• “Em busca do NÃO”

EXEMPLOS DE APLICAÇÃO (DEMONSTRAÇÃO)

Compartilhamento de Experiência de Vida: Cascavel:

 

Fluxograma do Processamento Desejante (PD): MBL como Máquina Fascista Jovem

Sonho: Folha Híbrida:

Análise geopolítica: crise na Alemanha e Pax Silica: 

 

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
2 Comentários
  • Nota necessária

    Tanto a “A Historiografia do Não” como o conceito de “Classe dos Gestores” são elaboração teórica de João Bernardo – autor do monumental estudo (entre muitos outros )”Os Labirintos do Fascismo”.

    Ambos estão incluídos na caixa de ferramentas do PDE (Processamento Desejante) como armas conceituais.

    Em “A Economia dos Conflitos Sociais” João Bernardo apresenta o conceito de Classe dos Gestores (Capitulo 3.5. “Classe burguesa e classe dos gestores”, página 218).

    Os links de referência sobre “A Historiografia do Não” estão indicados no artigo, na sessão “O Vírus Conceitual”.

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